A grande maioria das mulheres em algum momento irá se questionar sobre até quando é possível esperar para ter um filho. Atualmente, muitas mulheres têm postergado a maternidade pelas mais variadas razões: busca de estabilidade no mercado de trabalho, maior investimento em formação educacional, casamentos mais tardios e aumento nas taxas de divórcio, com a criação de novas famílias. Entretanto, todos sabemos que o relógio biológico e a reserva ovariana seguem seu curso, independente destes fatores.
No congresso da Sociedade Europeia de Reprodução Humana, no mês passado, foi apresentado um estudo, divulgado em toda a imprensa nacional e internacional, que acompanhou 266 mulheres dosando um hormônio (AMH-hormônio anti-mülleriano). Através destas dosagens, foi possível prever a idade de início da menopausa. Embora este trabalho abra uma perspectiva interessante, pois pode indicar para a mulher que planeja engravidar mais tarde até quando é seguro esperar, há também que se ter cautela com relação a estes resultados, pois:
1) Este estudo utilizou um grupo pequeno de mulheres e necessita ser validado com amostragens maiores;
2) Existem fatores externos que podem surgir na vida da mulher e que podem acelerar o declínio da sua reserva ovariana, como, por exemplo, o cigarro e medicações quimioterápicas, entre outros;
3) Existem outros fatores além da idade que podem causar infertilidade e que não são necessariamente só da mulher, podendo ser masculinos também, e que podem dificultar a obtenção da gestação;
4) Anos antes de entrar na menopausa, as taxas de gestação espontânea entram em declínio, porque embora ainda haja ovulação, a qualidade já é menor, o que diminui as taxas de fertilização e aumenta as taxas de abortamento espontâneo;
5) Até que ponto esta informação dará maior tranquilidade para a mulher ou criará maior ansiedade e frustração, por ter que controlar também mais este aspecto da vida, trazendo maior stress e sentimento de culpa.
CÂNCER E REPRODUÇÃO
No último congresso da Sociedade Europeia de Reprodução Humana, realizado em junho de 2010, um dos temas bastante discutidos foi a importância de preservar a fertilidade nos pacientes jovens com câncer.
Para se ter uma ideia da relevância do assunto, segundo dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer), em 2008 foram feitos diagnósticos de 466.000 casos novos de câncer no Brasil. Destes, 55.000 ocorreram em pacientes jovens, com menos de 35 anos. Felizmente, vivemos em uma época onde receber o diagnóstico de câncer não é mais sinônimo de morte. Hoje, com os avanços na cirurgia, na quimioterapia e na radioterapia, os índices de cura aumentaram muito. Oitenta por cento das crianças com câncer se curam e por isto já é possível que estes pacientes tenham vida normal após a doença, retomando seus planos para o futuro, nos quais muitas vezes se inclui o desejo de maternidade e paternidade.
Ocorre que, muitas vezes, os tratamentos oncológicos podem determinar infertilidade permanente. A radioterapia sobre a área dos ovários ou dos testículos pode comprometer o funcionamento dos mesmos. Algumas drogas utilizadas na quimioterapia também podem determinar lesões permanentes sobre os óvulos e sobre os espermatozoides.
Pensando nisto, e verificando através de pesquisas que os pacientes que preservam sua fertilidade antes de iniciarem os tratamentos oncológicos melhoram sua auto-estima e a resposta ao tratamento, é que os oncologistas, juntamente com os especialistas em reprodução humana, têm se preocupado com estas questões.
E o que é possível oferecer a estes pacientes?Para os homens jovens, é possível congelar sêmen, o qual pode ser guardado por tempo indeterminado. Se, após liberação médica, este paciente quiser ter filhos, poderá descongelar estas amostras para que sejam utilizadas em procedimentos de reprodução assistida, como inseminação ou fertilização in vitro.
Já as mulheres, podem congelar óvulos ou embriões, os quais poderão ser transferidos anos mais tarde para o útero. Existe ainda a possibilidade de congelamento de tecido ovariano, embora esta técnica ainda seja considerada experimental.
Muitos destes pacientes jovens que congelam seus gametas talvez não venham a utilizar este material, pois alguns não ficarão inférteis e engravidarão espontaneamente, sem necessidade de auxílio médico, e outros talvez não queiram ter filhos. Mas o importante é que a todos tenha sido oferecida a opção de preservar a sua fertilidade, trazendo uma perspectiva em um momento tão difícil que é o do diagnóstico de um câncer.